04/03/10

PORQUE ESTOU INVISÍVEL


O que houve com aquela multidão que percorre a Central do Brasil todos os dias? E aqueles com quem encontrava nos elevadores? Cadê a multidão, a ror, o bando, a réstia, a tertúlia, o antro e o cortejo que estava por perto, andava ao meu redor, em torno, derredor, circulando meus pensamentos, interesses, compromissos ou propósitos, em torno do qual girávamos por metas, intenções e objetivos?

Pendula dentro de mim a invisibilidade do circundante, a desintegração do futuro, a sorte indomesticável, a transparência do indigente, o frêmito do indesejável, a incomplacência sem perdão, o tique do inadimplente, o ébrio e leve vagar da esperança.

Os outros, a choldra, os camundongos, a plêiade, o rebanho de mãos e braços, desapareceram, efetivamente sumiram. Sumiram os "alôs", "como vai" , "e aí", "tudo bem?", "e a família?"... Sumiram os adjetivos, os elogios, o respeito, a concatenação, a cumplicidade, a esperança, a fraternidade, o "deixa-que-eu-pago", os cafezinhos e os momentos comezinhos. Tudo que habitava o outro sumiu junto com o outro! Cadê vocês? Onde vocês foram?

Não perdoaram minha materialidade, o âmbito de sangue com nervos, ossos e emoções. Não perdoaram a literal permanência no espaço, expondo uma incompletude insistente, uma pretensão resistente e a mania insistente de ter cor, compartilhar clamor, perder o posto, expor a dor.

Milhões de coletividades, cebolas, porcos, vadios, vagalumes, vespas, vozes e gente. Há um turbilhão de nada à minha volta. Uma horda de incompatíveis sobre meu corpo olvidado. Há uma intenção sobremaneira de enterrar toda vertebralidade gasosa que represente um indício de povo neste mundo.

Apenas eu, vagando neste teclado, como um fenômeno sem causalidade evolutiva, sem expectativas práticas de sobrevivência, sem cartão de crédito, sem inteligência locatícia ou meandros psicossomáticos. Sem a mediação do outro sequer sou produto do meio.

"Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara" (Behind joy and laughter there may be a temperament, coarse, hard and callous. But behind sorrow there is always sorrow. Pain, unlike pleasure, wears no mask)." Oscar Wilde.
Há uma interposição de ausência de luz entre mim e o outro. Um refletir insolente da noite na alma, uma conivência daquelas pessoas estáticas que estavam na fila de banco com a invisibilidade. E das que estavam na fila do ônibus. E do resto também.

Foram-se as pessoas e esqueceram o resto das coisas e as coisas em moto continuum, paredes, tráfego, ruídos, lâmpadas, internet e outras coisas vivas. Talvez para que as coisas as substituíssem.

Ou talvez tenha sido eu a me tornar invisível, descoletivo, acortinado e sem bolso. Retirei-me da realidade como uma velha carteira de documentos  do bolso direito. Como as chaves da porta sobre a mesa, sem claviculário. Sou agora o ônus, o enclave humano estocado pela circunstância de minha própria invisibilidade. O cara que deixou de ser visto. 

O mundo desaparece dentro da ror, enfatiza minha insignificância. Só porque estou invisível.

Anteontem


O telefone tocou,
era anteontem.

Ultrapassei o silêncio,
sentei cansado,
era engano.

Não havia platéia no cotidiano,
todos foram embora,
e levaram a ribalta,
levaram o fio do telefone.

Não havia o enlace
tal qual eu-te-amo
urdido em trapaça,
e dito anteontem.

A barba está feita,
não há uma vodka perfeita,
os gelos permanecem intactos no congelador,
e o frio é o mesmo que deteriora.

O telefone nunca mais tocou, só anteontem.
os velhos amigos não se reunem mais, só anteontem.
A alegria não saiu em turma
ou seguiu o bloco
ou cresceu orgânica
ou salvou a foca
ou está retida, no anteontem.

Não tenho um caminho novo.
O que eu tenho de novo é um jeito de caminhar.
Thiago de Melo quem disse.

02/03/10

O SEMEADOR


Há muitos e muitos anos atrás, como se começa uma história em que "era uma vez", conheci uma pessoa cujo carisma pessoal, coração extravagante em se abrir a amizades ao acaso ou tropeçadas, acabou por me envolver. Envolvimento intuitivo cuja essencialidade é definida pelo destino e pelos astros.

Não sei quantos são os atores envolvidos nas ecolhas do tempo e das realizações. Dizem que a espiritualidade transcende escolhas. Mas certos caminhos acabam se transformando no que não foi planejado pela mortalidade, e sim, pela posteridade. É resultado do que escrevemos sem saber, do que plantamos sem colher, do que fazemos com amor.


O homem que cruzou meu destino se chamava José Ricardo.

Trouxe ao largo sua família, seus filhos, suas histórias, suas manifestações largas de otimismo e filantropia. Sempre que chegava trazia uma luz discretamente eterna e carinhosa, um humor perfeito, uma vitalidade anti-pílulas e um jeito de ser acima de qualquer livro de auto-ajuda.


Após alguns anos de convívio José Ricardo partiu e deixou um legado de possibilidades pré-construídas, planificadas por suas escolhas e intuição, determinadas por suas realizações discretas. Deixou um projeto que seu filho às vezes atribui como uma idéia minha, uma colaboração do nosso encontro, mas que na verdade não era.


O projeto da Fundação José Ricardo tinha uma consonância materialista (no sentido filosófico) e uma vertente espiritualista. Nasceu da dialética de um acontecimento e três circunstâncias. A primeira, foi a de ter ele criado dois filhos com grandes qualidades de caráter e empreendedores sociais também intuitivos como ele. A segunda, foi sua trajetória de vida, marcada pelo ímpeto de ocupar um espaço criativo e sentimental na sociedade, cumprindo o que não lhe foi pedido por ninguém, a missão de ajudar uns e outros.


A terceira circunstância foi nos encontrarmos e trocarmos algumas idéias sobre o que fazer com aquele legado. Surgiu a idéia da Fundação, de seus objetivos e de como iniciar. Eu fui apenas uma circunstãncia.

Seus filhos e esposa acreditaram e investiram coração no projeto, o coração do pai, seu DNA, a combinação filosófica e espiritual que enreda as decisões e fomenta realizações.


Depois disso ajudei muito pouco. Dei algumas idéias, arrumei um espaço para os primeiros eventos, colaborei num ou noutro aspecto estrutural. Caminhei orgulhoso no tempo por levar alguma glória, alguns méritos e muitos sentimentos de consideração fraterna à semeadura. Não sou os vários que cantaram e contribuiram como protagonistas e participantes. Não pude, na maior parte do tempo dos últimos 10 anos, contribuir financeiramente com essa história, e quando pudia, não o fiz por estar perdido em meu próprio universo de preocupações e dedicações.

Ainda hoje busco respostas para o caminho traçado e realizado. Para o meu afastamento das circunstãncias que determinaram o amadurecimento da FUNJOR no tempo, em importância e fortalecimento ético. Isso se deve ao amor de uma família, à história de um homem, às figuras de seus Ex-Presidentes e defensores humildes.


Minha homenagem à Fundação José Ricardo.
E meus agradecimentos aos agradecimentos que me fazem todos os anos, sem saber que o quão minúscula é minha colaboração perante a obra que foi a vida de um pai e artista maravilhoso.

Através deste transcurso, das milhares de realizações e destes 10 anos de institucionalidade inatacável, à margem de minha vida pessoal marcada por sucessos e fracassos, aprendi a importância de um tijolo numa construção, e aprendi que o principal semeador deste grande projeto foi na verdade o próprio José Ricardo.

Não poderia deixar de contar esse pequeno pedaço de minha vida e esse grande acontecimento que foi a Fundação José Ricardo para muitos que são ajudados por ela e que colaboram através dela. Fazem dela um instrumento para criar e ajudar. Esse é o sentido, é o significado maior do que foi feito.

Obrigado e parabéns à família de José Ricardo, assim como a todos os amigos, membros e fazedores da Fundação José Ricardo por terem ajudado a enriquecer minha vida com exemplos.




25/02/10

TADEU, O ENGRAXATE

O engraxate se abaixou, fez a escova girar duas vezes no ar como malabares, posicionou um cinzeiro de lata de graxa vazia à esquerda de meu sapato e começou sua tarefa como um deslinde criativo. O cigarro descia da boca também com um giro acrobático dos dedos e pousava de tempos em tempos sobre o cinzeiro improvisado. Lata de Nugget e escova de dentes, os primeiros movimentos eram de pintura, espalhamento e recobrimento. O cigarro esperava quieto enquanto ele evoluía naquele ciclo do serviço.

E eu estava ali diante dele, tentando imaginar o roteiro daquela pequena vida, um cara com uma caixa de engraxate repleta de santinhos, desses que as gráficas vendem aos bilhões, com novenas, para serem distribuídos em pagamento de promessas. Estavam esmaecidos mas estavam lá.

Por um instante parei totalmente minha vida, meus pensamentos emergenciais e circunstanciados por dívidas e despesas, que a qualquer momento me parecem mais importantes do que as intendências dos miseráveis que habitam as ruas. Lembro-me de um artigo que li sobre segurança na Internet e refleti sobre essa pequena falha no "tunelamento" de minhas preocupações. Ou seja, desviei-me do "túnel" que nos protege de ficar pensando nos engraxates.

Um real, era quanto custava aquele tempo, R$ 1,00 sem sorrisos para aquele agachado sem perfil, sem sofrimento audível. Ele está preparado para não me contar nada, não perder tempo contando suas desgraças ou carências a um software pequeno burguês. Eu sou o programa. E a caixa de engraxate é a conexão, como se tivessemos um bluetooth que nos permitisse um contato passageiro, para a transmissão de apenas curtas mensagens.

Só sei que ficava olhando para o São Judas Tadeu que estava pregado na caixa, tentando saber se não estava numa espécie de oratório portátil ou delivery divino, a me trazer o patrono das causas desesperadas e das causas perdidas, humildemente sob meus pés, para um despacho meramente simbólico e informal. Um ato de esperança no térreo. Uma destinação simplória e ocasional decaída em genuflexório de engraxate. Eu não sou a esperança, ele não era, o tempo era demasiado curto para minha alma renascer. Mas ele estava ali. E eu paralisado pela circunstância.

O engraxate foi sem um sorriso. Este não era um relações públicas, não era externamente um padroeiro, não cobrava piedade.

Talvez o dinheiro fosse para pão, talvez fosse para um joelho quentinho, ou cola, ou crack, ou leite para um moleque que haveria de encontrar amanhã sem destino. Não sei. Só sei que tirei de meu peito a ilusão que me custou um real e sonhei que amanhã a chuva haveria de lavar minha alma e a dele. Eu sob taxa condominial e com conforto. Ele, talvez sob uma das passarelas subterrâneas do parque do flamengo.

Ele aceitou a nota de dois reais que lhe dei, a gorgeta emocional, o observar secreto de minha compaixão, e eu aceitei de bom grado o sapato engraxado. Só quando cheguei em casa é que percebi que ele estava furado.



23/02/10

RAIOS E INVERNOS

"Navegamos, ó meus fraternos Amigos, eu já sobre a popa, Vós à proa em pompa que toca A onda de raios e de invernos".

Este é Mallarmé, meu superego simbolista que decai sobre os meus dias sempre enternecidos com a política. Os meus dias sempre ao contrário dos que são contra, ou sem contrário dos que são a favor. Não digo nada que não queira, mas digo o que muitos não querem ouvir. Querem um exemplo? Eu me enterneço com a política e seus atores que resplandecem por vários motivos, dos mais torpes aos mais interessantes e concernentes à melhoria de nossas vidas. Aliás, eu acho que esse "mar-de-lama" escorre grandes benefícios em meio aos ovos e a prostituição. É uma inconveniência tão necessária quanto os prostíbulos da cidade grande para um proletariado que nunca leu Reich. Mas tem gente que prefere o exercício músculo-intelectivo de lançar os tais ovos podres.

Eu acho que chamar político de ladrão é uma abominação. Acho porque é muito pretensioso querer ser povo quando não se escova os dentes (e por isso mesmo temos mais de um bilhão de cáries acampadas na boca de milhões de vociferantes). E também porque rima bem ão-com-ão.

Mas é preciso esclarecer que não estou aqui querendo posar de alheio à boa vontade do legislador ou do gestor público em nos querer educar um pouco melhor, querer nos ensinar a descartar o lixo, querer nos ensinar a não jogar lixo na rua. Se falta um zilhão de almas para se educar em posturas urbanas, como esperar que selecionem a mais fina flor da retidão?

Acho que há um tecido duplo sobre a pele que nos faz desejar o contrário do que repudiamos. Essa é a loucura. Tem gente com opinião muito mais transversal do que eu. Essa pulsão de desejar o político é tão maniqueísta quanto a de repudiar. Cuspir na Geni.

Então, vou mandar alguns contrários:

> As casas legislativas não são tão ruins. A vida é que nos confunde pela impertinência da má distribuição do fausto nepotista, ou pelas negociatas convenientes no contraste da massa depauperada. E nos confunde por nossos desejos obscenos ante o covil de lobos que não espreitam e não devoram, mas sim, arvoram-se.

> Deputado não é ladrão e sim corretor dos objetivos carreiristas que alimentam o ideal de ficção que os eleitores têm entre um jogo de futebol com cerveja e um fim de semana na praia, seja em um hotel cinco estrelas ou num ônibus alugado de turismo.

> Não existem partidos desonestos. Acho que partidos como Psol e Dem são concatenações distintas da mesma dúvida, da mesma necessidade classista ou ideológica de buscar uma identidade mercadológica. Promovem idéias através de uma performance repleta de emocionalismos convictos. Encontram uma sociedade cujas pertubações fomentam uma ocupação de espaço propensa ao prazer de ver o beque do nosso time cometer uma falta espúria, de vibrar porque o juiz não deu pênalti a favor do adversário, de burlar regras por conveniência individual.

> O amor é um mito. Ando em busca da teoria de Roland Barthes de que o amor é um MITO da sociedade moderna, esse fenômeno de difícil definição e que nos desaproxima da verdade. Estrutura-se sobre um conjunto de acontecimentos e fragmentos sócio-culturais e aninha-se em nosso corpo articulando o físico ao mental. Para Foucault o mito equaciona o saber, a verdade e o poder, e essas três formas de manifestação fazem parte do inconsciente coletivo amoroso. Aceitar a idéia do amor como MITO não é muito agradável, nem para mim nem para a maioria dos mortais, com exceção de alguns tipos de psicopatia presente no discernimento de alguns imortais. De qualquer modo posso manifestar livremente minha interpretação dessa mitologia e ajustá-la as minhas expectativas de amor à pátria, paixão, flerte, assédio, traição, lealdade e insubmissão. Tudo posso em nome do amor. Uns explodem bombas, outros arremessam aviões e uns outros tentam assassinar o papa.

> Depois eu continuo.

I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05