O que houve com aquela multidão que percorre a Central do Brasil todos os dias? E aqueles com quem encontrava nos elevadores? Cadê a multidão, a ror, o bando, a réstia, a tertúlia, o antro e o cortejo que estava por perto, andava ao meu redor, em torno, derredor, circulando meus pensamentos, interesses, compromissos ou propósitos, em torno do qual girávamos por metas, intenções e objetivos?
Pendula dentro de mim a invisibilidade do circundante, a desintegração do futuro, a sorte indomesticável, a transparência do indigente, o frêmito do indesejável, a incomplacência sem perdão, o tique do inadimplente, o ébrio e leve vagar da esperança.
Os outros, a choldra, os camundongos, a plêiade, o rebanho de mãos e braços, desapareceram, efetivamente sumiram. Sumiram os "alôs", "como vai" , "e aí", "tudo bem?", "e a família?"... Sumiram os adjetivos, os elogios, o respeito, a concatenação, a cumplicidade, a esperança, a fraternidade, o "deixa-que-eu-pago", os cafezinhos e os momentos comezinhos. Tudo que habitava o outro sumiu junto com o outro! Cadê vocês? Onde vocês foram?
Não perdoaram minha materialidade, o âmbito de sangue com nervos, ossos e emoções. Não perdoaram a literal permanência no espaço, expondo uma incompletude insistente, uma pretensão resistente e a mania insistente de ter cor, compartilhar clamor, perder o posto, expor a dor.
Milhões de coletividades, cebolas, porcos, vadios, vagalumes, vespas, vozes e gente. Há um turbilhão de nada à minha volta. Uma horda de incompatíveis sobre meu corpo olvidado. Há uma intenção sobremaneira de enterrar toda vertebralidade gasosa que represente um indício de povo neste mundo.
Apenas eu, vagando neste teclado, como um fenômeno sem causalidade evolutiva, sem expectativas práticas de sobrevivência, sem cartão de crédito, sem inteligência locatícia ou meandros psicossomáticos. Sem a mediação do outro sequer sou produto do meio.
"Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara" (Behind joy and laughter there may be a temperament, coarse, hard and callous. But behind sorrow there is always sorrow. Pain, unlike pleasure, wears no mask)." Oscar Wilde.
Há uma interposição de ausência de luz entre mim e o outro. Um refletir insolente da noite na alma, uma conivência daquelas pessoas estáticas que estavam na fila de banco com a invisibilidade. E das que estavam na fila do ônibus. E do resto também.
Foram-se as pessoas e esqueceram o resto das coisas e as coisas em moto continuum, paredes, tráfego, ruídos, lâmpadas, internet e outras coisas vivas. Talvez para que as coisas as substituíssem.
Ou talvez tenha sido eu a me tornar invisível, descoletivo, acortinado e sem bolso. Retirei-me da realidade como uma velha carteira de documentos do bolso direito. Como as chaves da porta sobre a mesa, sem claviculário. Sou agora o ônus, o enclave humano estocado pela circunstância de minha própria invisibilidade. O cara que deixou de ser visto.
O mundo desaparece dentro da ror, enfatiza minha insignificância. Só porque estou invisível.