Pensamento é uma coisa discreta que diverge do falado. É o impuro ato sem reflexão.
25/12/09
Sean, Sam e Metalinguagem
Sean é o subprotagonista da história de Sam, o Tio patriótico e pródigo da cinematografia que luta contra a barbárie e a injustiça dos povos subdesenvolvidos. Enreda-se num enredo metalinguístico que ainda não compreende, e cujos resultados somente saberemos ao longo de seu amadurecimento.
O tema do menino supostamente sequestrado pela família da mãe foi deflagrado para o público quando um senador Republicano, apoiado por uma senadora Democrata e candidata presidencial, apoiados por uma emissora de TV que tudo custeiam, encampam o assunto de maneira militar. Justiceira como de praxe.
Na América livre, um governo ameaça sanções contra o Brasil num assunto subjudice. Entrelinhas, isso quer dizer que os parlamentares americanos não acreditam em nossa justiça. Talvez nem mesmo acreditem na dele, mas sabem dissimular muito bem.
A dissimulação, que faz parte da lógica iconográfica que norteia imprensa, televisão e público telespectador, bate recordes de receita. Se Sean gera ibope, gera também venda para os anunciantes. E o processo é tão intenso e poderoso que é capaz de interferir na necessidade de ocultar a imperfeição de uma sentença judicial como a que devolveu Sean ao pai biológico.
Não porque ele não tivesse direito. Mas porque o assunto é de uma complexidade tão específica que transcende a versão das partes. Não basta optar por uma sentença. É preciso estabelecer as reservas de vontade do menino, as garantias da família e o interesse público.
A decisão do STF foi unilateral e impensada quando não trata de garantir, sobre os danos que pode causar, garantias mínimas de segurança emocional e familiar a Sean, no contexto de sua família brasileira.
A justiça brasileira perdeu quando não respeitou a opinião do menino, independente da fundamentação declinável de uma sentença. O governo brasileiro perdeu, quando capitulou um silêncio de quem não nega pressões. E nós perdemos com a estupefação.
Mark Currie, na introdução de Metafiction, diz que "o romance auto-consciente tem, assim, o poder de explorar não apenas as condições de sua própria produção, mas as implicações da explanação narrativa e da reconstrução histórica em geral." E ao explorar sua própria narrativa, a imprensa (brasileira e americana), sob pontos de vista diferentes, também exploram as implicações da própria explanação narrativa do que é justo, pátrio e moral.
E o fazem comprometidos pelo véu ideológico de sua audiência, pela visão de seus produtores e pela crítica hegemônica do poder que a alimentam. Essa é a lógica reducionista que decidiu e está decidindo o futuro de Sean.
A mesma lógica que reduz a nossa consciência ao véu da metalinguagem dos meios de comunicação contemporâneo.
Até.
01/12/09
MAU OLHADO ABORTIVO
I n c o m u n i c a ç ã o
Quero saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
EL ÁNGEL GUARDIÁN
Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)
Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.
Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.
Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.
Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.
Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Gabriela Mistral