15/01/10

Amanhecer

Às 5:30h da manhã de um dia chuvoso podemos perceber uma noite convalescente e um amanhecer de plena solidão. Levanto, pego meu guarda-chuva e vou caminhar na praia. Nenhuma das centenas de pessoas que esbarro diariamente, saíram para me fazer companhia. Todas se recolheram. Achuva é mansa e persistente. A praia está deserta. O mar está quieto. Meus pés fazem barulho. 

Caminho em busca de pensamentos que me façam compreender a existência do Haiti. Penso nos trabalhadores das barracas armadas em tendas no meio da areia. Investigo os riscos de andar solitário num espaço urbano desprotegido. Organizo meus sentimentos existenciais, as saudades, as ausências, as incertezas e destrezas do tempo. As novas dimensões da idade e as novas possibilidades de recusar caminhos objetivos. 

A paisagem caminha pra trás, sôfrega de acompanhar-me sem a intensidade do sol. Percorro um emaranhado de poças e reflexos trêmulos, água incessante. Andrajos ameaçadores com cartolinas na cabeça me perscrutam. Cruzo com dois corredores destemidos. Começo a correr.

Corro! Corro! Corro! Em ritmo de baixa cadência, trote de bonde adiantado, carreira de boi molhado, reta sem ribanceira, rua desaguada, movimento da alma atrasada entre as saudades esquecidas. Saudades andantes amontoadas no eixo do esquecimento. Corro... Corro e carrego as gotas implosivas. Corro e carrego minhas decisões maduras.

Esse é meu território, ausente e líquido, imenso e turvo... matinal e essencial.



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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05