18/01/10

TRAGÉDIA E REPARAÇÃO

A tragédia do Haiti, como qualquer catástrofe, tem uma lógica midiática que varia conforme o tom e a perspectiva de quem a comunica. E tem ainda uma variedade de entendimentos e interpretações intermidiáticas, que são intermediárias entre o céu e o inferno. 





Mas tem também uma violência emocional e incompreensível à nossa compreensão anti-geológica. É patético não entender porque um lugar tão miserável como o Haiti foi escolhido por um terremoto. Aliás, tudo é patético e incompreensível neste imenso palco de horrores em que se misturam corpos putrefatos com câmeras de TV que se tornam olfativas pela narrativa de seus repórteres.


Ninguém imagina a bárbarie cenográfica em que está se transformando o Haiti. 
Capítulos de carnes amontoadas que escondem a sombra incansável de Zilda.
Montes de microfones e lentes ávidas de espetáculo...

Os franceses se preocupam com o Haiti da mesma forma com que se preocupavam com com Duvalier e os Tontom Macoute, a Polícia Secreta de Baby Doc. Os americanos sempre estiveram alienados às ditaduras sustentadas e agora se preocupam com a crise. Uma fatina, no entanto, dessas populações, são formadoras suficiente de opiniões para garantir gordas contribuições. O mundo será solidário, apesar da alienação.


Há muito que se falar do Haiti. Assim como há muito que pensar.


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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05