17/02/10

DESCARNAVALIZADO

Neste carnaval fui obrigado a estar nele. Dentro dele. Quando achava que estava fora ele me perpassava como uma neblina inconsutil de gente, barulho, risos esgarçados e engarrafamento. Atraía-me para dentro com uma golfada de imposição. Assume-me ou te tacho de louco.

Devorar é fácil quando o enigma sou eu. O problema é lidar com esse estremecimento social, urbano e extravasador cuja simplicidade mental não me motiva. É um ritual de reorganização da desordem necessária, limpa sob o tapete das castrações. Não coaduna comigo ou não coaduna com meu momento. Pode até ser que um certo dia qualquer no futuro, eu me sinta envolvido pelo movimento inconsistente das massas, em sentido contrário e aleatório.

Em vez de se organizar no trânsito, desorganizá-lo; em vez de silêncio, barulho. E tanto faz a qualidade do barulho quando misturado à química coletiva. É um interregno na precisão corporativa, uma intromissão no ordenamento jurídico e uma decomposição primária de desejos postos à prova. Os guardas são provocados, os sinais desrespeitados e a fleuma de politicamente correto desajustada no borburinho das emoções. É o átrio da bagunça por onde o povo vaga na contramão.

E esse ritual convergente fica me convidando a ir com ele. São amigos, familiares, conhecidos e vizinhos abduzidos por este eixo imperialista de colombinas, arlequins e multidões.

Não tenho reminiscências. Não tenho permeabilidade à embriaguez da letra triunfante. Não tenho predisposição fácil para jogar meu corpo descarnavalizado para o alto, para os lados, para frente e para trás. Eu olho tudo com extrema curiosidade e olhar solene. Eu cansei de realidade e dessa experiência difusa que descomprime para repor nossa submissão ao destino e às regras de sobrevivência.

Aliás, não vi neste carnaval muita anormalidade. Estava meio patético, meio solene e circunspecto. Vi algum movimento mas nenhuma inovação que me provocasse o fígado. Acho que foi isso que faltou neste carnaval para que eu pudesse me identificar um pouco mais. Neste carnaval não dialoguei com a festa. Fui obrigado a estar nela.

Então caros amigos, me perdoem esse marasmo importunante de rejeitar o meu carnaval e o seu carnaval. Apesar de ambos serem o mesmo, uma festa única, as vontades são desiguais e minha alegria é mortal como meu corpo. Adoece de pronto por simples alteração de humor ou por tesão ao reverso. Tal como alguém que se veste de "piranha" porque é uma prescrição ritualística inverter-se. Independente de desejos recônditos. O que vale é poder fingir a confusão das regras.

E se me contrario não é por causa da violação ou da inversão de papéis. Eu fico contrariado com as condições da viagem, os critérios de passagem e entendimento ritualístico. Fico contrariado só de implicância. Essa é a verdade.

1 comentários:

Wilson disse...

SYLVIO, ADOOOOOOOREI! O (NEM SEMPRE O ÓBVIO É U-LULAR) MERECE
SER "REFRÃO"
SYLVIO, O "PESSIMISMO" E O "DESCARNAVALIZADO" ESTÃO À ALTURA DO SEU JEITO PERSONALÍSSIMO DE DIZER
O QUE SENTE COMO SENTE.
WILSON DE REZENDE

I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05