09/02/10

M I N H A S C I R C U N S T Â N C I A S

Tem uma famosa citação de Ortega y Gasset que exige leitura atenta ou até mesmo releitura lenta. Já a ouvi muitas vezes em menções específicamente interessantes, mas ainda assim, não a senti no contexto de minha própria solidão.

"O homem é ele próprio e sua circunstância".

Já morri e renasci várias vezes. Já caminhei sem pressentir a derrocada de meus instintos, do meu planejamento altaneiro, de planos organizados ou desejos convertidos. Já me esforcei ao máximo e escorreguei no ápice. Já elaborei ectoplasmas de possiblidades que se desfizeram na amálgama da imprevisibilidade. Ora foi o homem, ora minha circunstância, o que me devorou.

Mas não há muito de verdade nas justificativas, culpas ou retificações morais. Há sim, uma natureza ambivalente, que desconstrói paradigmas e os repõe em blocos mentais, reesculpindo o que sou para a próxima circunstância. É essa dualidade que desconstrói os objetivos quando estou bem próximo deles. Dualidade inata na circunstância, na decepção, na lágrima.

Há muito e pouco o que falar quando desejo me fazer entender. E não tento mais do que a circunstância, ela novamente, traduz-se num velha expressão: 

"Dou com os burros n´água"...uma circunstância que torna interessante entender que o burro é ele próprio e sua circunstância. No caso, a circunstância dos burros foi serem montados por dois tropeiros com fardos de sal e algodão, tentando competitivamente atravessar um rio. O algodão encharcou e o sal dissolveu-se, fazendo com que dessem com os burros n´água.

Meus ideais demandam compreensão, fé, ânimo e objetividade. Mas a circunstância é de sal no rio, algodão em águas evanescentes. Meus ideais oscilam entre a circunstância de Ortega y Gasset e o anarquismo filosófico extemporâneo de Bakunim. Perde o sentido a circunstância para emergir um sistema que desorganiza as certezas que pode existir entre os homens. Poucos são aqueles cuja circunstância me permitem crer no homem positivo.

 
Acima, uma pintura de Gustave Coubert, de Proudhom, autor do ensaio socialista "O que é a propriedade", texto histórico de sentido revolucionário. O quadro, no entanto, emana um pouco da época e da convergência deste pensamento. Não é ideologicamente nada. É simplesmente belo. 

Advém então a calma tranquilizadora entre as incertezas tão absolutas e dependentes de decisões circunstanciais, aleatórias e nada sentimentais. Nada filosóficas ou primaveris. Nada diferente do marasma e do suor deste verão interminável. Nada objetivas para eleger paz à noite.

Mas é Ortega y Gasset que diz que paz e cultura têm um valor recíproca em seu vocabulário: paz é a postura da alma culta, e cultura é cultivo.

Este é o esforço permanente que me faz colocar aqui textos circunstanciados em minha própria vivência, meus momentos e meus pequenos e miseráveis dramas pessoais. Fatos e pessoas ocultas neste monólogo crônico e filosófico. Busca e troca remota entre minhas reflexões e a percepção de cada um.

Essas são minhas circunstâncias no tempo estrito da crônica.


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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05