12/02/10

A NOITE E A VIDA

Preciso de gotas de vida para alentar meu coração de pai.
Preciso do som da fúria para entender o barulho real dessa contração,
sístole de impiedoso temor,
diástole de amor, ai, ai...

Preciso de uma dose qualquer de crença e sono,
avaliação líquida de que a vida tece inexorável a incerteza,
e a fé cresce mesmo que abscôndita entre as mentiras.
Faz-nos dormir antes que amanheça.

Mas tenho ânsias com pedaços de pão,
chá com porradas no estômago,
absoluta falta de vislumbres,
e choro desliquefeito. Se é que pode.

Palco de mim mesmo é onde me encontro.
Cego dos vários eus que me circundam,
Afogado na desesperança vil das amizades
Compungido em mágoas por moedas.
         Não caio em mim.
Caio comigo e me agarro em flor no sentimento de viver,
Agarro-me aos espinhos por sentimento à flor,
Agarro-me à laceração por autopiedade,
Agarro-me à violência da verdade,
À emanação da angústia à um e outro,
À bravura grotesca de morrer um pouco à noite para acordar com vida.

Não há verdade alguma na metáfora,
apenas sonhos apensos do real. 

Sons de soluço no palco e na gruta.

Sylvio, 12 de fevereiro de 2010

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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05