09/02/10

O FRADE E O GENERAL


"Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas.
Nosso Estado é laico pela própria Constituição e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada!

Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas...
Não quero ver a Cruz nas Câmaras legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte...
Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados.
Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento.

É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres".

O texto atribuído ao Frade Demetrius dos Santos Silva, de São Paulo, e que me foi encaminhado por uma amiga, é uma ruptura de discurso no interior da própria igreja. Um corte transversal no pensamento que descola do convencional e busca um entendimento ético e sem parcimônia para com os hábitos fisioccráticos do poder. Não se deve ou pode proteger as grandes instituições públicas por meio da indiferença e do conformismo burocrático político. A citação do Frade Demetrius não é só um "questionamento" com franja ideológica. É uma reestruturação da percepção, um contraponto ao imanente. É disso que falo na maior parte das minhas crônicas e é isso que busco sem chocar. Um caminho que permita um novo olhar e preserve o canal da discussão e do diálogo.

Curiosamente e como contraponto, o brilhante Luiz Garcia escreveu hoje (09/02/2010) uma crônica no Globo comentando a declaração sobre homossexuais do General Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado para o STM, e que está pagando por ser um homem honesto e corajoso.

Entretanto, a sinceridade e a coragem de suas opiniões demonstram também um desvio na capacidade de pensar e refletir a realidade sem assentamento moral. Luiz Garcia  explica apropriadamente, que "os 'comandantes gays temidos´ pelo general (e por muitos dos seus companheiros de farda) simplesmente não têm esse perfil. São homens que têm atração por homens. É uma forma de identidade sexual não melhor nem pior, mas bem diferente daquelas almas femininas aprisionadas em corpos masculinos (...). Ele (o general) parece pressupor que a opção sexual em si, e não o caráter e o comportamento público do militar, já bastaria para fazê-lo indigno da carreira militar"

O general Cerqueira podia não ter a intenção de discriminar homossexuais, tal como os grandes juristas e líderes governamentais não têm a intenção de discriminar outras religiões, e sim, sinceramente, corroborar o pensamento dominante, sua própria ideologia e proselitismo. Mas a generalização implícita no discurso do general é um sintoma autoritário de um preconceito enrustido.

Apesar de estarem em posição ideológica antagonicas, tanto o Frade demetrius quanto o General Cerqueira mercem ser ouvidos, discutidos e compreendidos. Assim como temas importantes como educação e liberdade. Se não ouvirmos e repensarmos nossos próprios textos e as emoções que os sustentam, o que será de nós?

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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05