"Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas.
Nosso Estado é laico pela própria Constituição e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada!
Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas...
Não quero ver a Cruz nas Câmaras legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte...
Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados.
Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento.
É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres".
O texto atribuído ao Frade Demetrius dos Santos Silva, de São Paulo, e que me foi encaminhado por uma amiga, é uma ruptura de discurso no interior da própria igreja. Um corte transversal no pensamento que descola do convencional e busca um entendimento ético e sem parcimônia para com os hábitos fisioccráticos do poder. Não se deve ou pode proteger as grandes instituições públicas por meio da indiferença e do conformismo burocrático político. A citação do Frade Demetrius não é só um "questionamento" com franja ideológica. É uma reestruturação da percepção, um contraponto ao imanente. É disso que falo na maior parte das minhas crônicas e é isso que busco sem chocar. Um caminho que permita um novo olhar e preserve o canal da discussão e do diálogo.
Curiosamente e como contraponto, o brilhante Luiz Garcia escreveu hoje (09/02/2010) uma crônica no Globo comentando a declaração sobre homossexuais do General Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado para o STM, e que está pagando por ser um homem honesto e corajoso.
Entretanto, a sinceridade e a coragem de suas opiniões demonstram também um desvio na capacidade de pensar e refletir a realidade sem assentamento moral. Luiz Garcia explica apropriadamente, que "os 'comandantes gays temidos´ pelo general (e por muitos dos seus companheiros de farda) simplesmente não têm esse perfil. São homens que têm atração por homens. É uma forma de identidade sexual não melhor nem pior, mas bem diferente daquelas almas femininas aprisionadas em corpos masculinos (...). Ele (o general) parece pressupor que a opção sexual em si, e não o caráter e o comportamento público do militar, já bastaria para fazê-lo indigno da carreira militar".
O general Cerqueira podia não ter a intenção de discriminar homossexuais, tal como os grandes juristas e líderes governamentais não têm a intenção de discriminar outras religiões, e sim, sinceramente, corroborar o pensamento dominante, sua própria ideologia e proselitismo. Mas a generalização implícita no discurso do general é um sintoma autoritário de um preconceito enrustido.
Apesar de estarem em posição ideológica antagonicas, tanto o Frade demetrius quanto o General Cerqueira mercem ser ouvidos, discutidos e compreendidos. Assim como temas importantes como educação e liberdade. Se não ouvirmos e repensarmos nossos próprios textos e as emoções que os sustentam, o que será de nós?
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