18/02/10

O SAPO E O PORCO

O tempo encurta o tempo e não o pranto,
O tempo é meu inimigo e senhor.

Sirvo-me dessa incerteza com véu,
Servo de dúvida e penhor,
Servo de insídia ao credor e esperança à criança.

Esperança, essa que canta,
Essa que vela,
Essa singela,
Que me habita subjacente à pele, 
Como um toucinho puro e sorridente.

Lembro da parábola do sapo na panela,
Finca o enredar do tempo no poema:
se jorgarmos um sapo numa panela com água fervente ele pula e sobrevive; se o deixarmos na água morna e elevarmos pouco a pouco a temperatura,
ele não percebe e morre.
Capaz de morrer antes do término,
Capaz de prender-me à catraca do transporte,
Capaz de ver acontecer insétil o inesperado,
Capaz de achar-me em contas estatísticas,
Tecendo a escapatez probabilística,
À fuga analógica que não vejo necessária.

Cego-me suíno e anuro num lago sem saída.

O tempo é o remanso local do porco,
E o louco que dele se alimenta,
O próprio porco abatido...

De sapo a porco, pulo da parábola ao fato:

para se abater o porco bastam dois homens;
um segura as patas traseiras hasteadas,
enquanto um segundo dana um machado no meio da testa do bicho;
Às vezes o bicho resiste porque choro,
Às vezes o charco é o antro da alegria,
Valha-me-deus a esperança e o tempo,
Apesar das mortes e saudades.

Encosto trêmulo na lembrança de mãe,
Abraço a estética do último suspiro,
Respiro ir-me sem matar-me...

Sou simplesmente o homem no remanso,
Inepto na espera do abate.

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I n c o m u n i c a ç ã o

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Sonetos)

EL ÁNGEL GUARDIÁN

PARA RECITAR AOS SEUS FILHOS

Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)

Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.

Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.

Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.

Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.

Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.

Gabriela Mistral

Cristo em 16/05

Cristo em 16/05