Pensamento é uma coisa discreta que diverge do falado. É o impuro ato sem reflexão.
18/02/10
PESSIMISMO
E neste marasmo de rodoviárias cheias, engarrafamentos com enforcamentos, cinzas de uma quarta esperada com uma iminente quinta-que-sacanagem - onde a ressaca é mais de trabalho do que da semana etílica - surge mais um desfraldar de incontinência da desordem organizada: o Flamengo joga contra o Botafogo.
O povo emenda um ritual ao outro. E os isopores com rolimãs somem junto com cervejas ou guaravitas de preços exorbitantes. Não deiam sequer sinal de que os consumidores exorbitaram na cumplicidade desta inflação intersticial e prenuncial da inflação de fato.
Pois é a mesma comunidade (uma mistura de todas as classes sociais) que derrama urina a céu aberto, latas de cerveja e uma infinidade de pequenos lixos pela trilha dos blocos ruaceiros, que o povo vive uma espécie de síndrome do desgoverno, de falta de autonomia ética e percepção gregária, de falta de consciência tribal no epicentro de um de seus principais rituais: esse tal carnaval.
Miau, a vida é apenas um habitáculo.
Não lhe é dona da razão ou da paixão.
Mea cupa, mea culpa, mea maxima culpa, o povo tem o dom histórico de acertar errando, mas é um ente como o passar de um trem. Uma estação entre outras, uma responsabilidade felina a justificar sua própria inconformidade com aquilo que nega ser espelho, tal como Narciso. E expõe-se como a flor deflorada em seu próprio jardim. Não saca e não compete sacar nada sob pena de ser considerado inteligente. E todo inteligente é incompetente por inexperiência e não por natureza. Por isso é deveras inútil para reconstruir o mundo.
E tanto faz quem são os revolucionários de agora, os seres mais progressistas ou mais comprometidos, os mais influentes na confluência dos antagonismos ideológicos. Morreram as ideologias e as categorias que nos abençoavam para a lucidez. Evadiram-se ante obamas e sunitas, webmarketing e afganistão, plutônio iraniano e o Gala Gay do Scala. Não sei se é catalepsia do socialismo que deixa de pulsar em minorias engajadas ou óbito que ulula (nem sempre o óbvio é u-lular), achar que o futuro vermelho é um cadáver insepulto. O fato é que neste carnaval eu estou pessimista.
Pessimista e inconformado com um carnaval que não me concedeu um momento de êxtase, de devaneio ou performance. Não pulei com ninguém no baile que não fui. Não flertei com umas ou outras que mal-me-querem. Sequer escutei falar de lança-perfume num tempo em que o tanto riso, ó tanta alegria... se canta com drogas mágicas e sintéticas.
Quero pular sim, esta página...
I n c o m u n i c a ç ã o
Quero saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
EL ÁNGEL GUARDIÁN
Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)
Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.
Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.
Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.
Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.
Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Gabriela Mistral
2 comentários:
Oi Sylvio.
Gostei muito do seu blog.
Principalmente pelo prazer de ler suas crônicas.
Vou sempre dar umas passadinhas por aqui.Escreva sempre.
Parabéns! Ana
Olá Sylvio
Neste post vc escreveu tudo o que eu queria dizer e não soube como.
Bom passar por aqui.
Abç
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