Pensamento é uma coisa discreta que diverge do falado. É o impuro ato sem reflexão.
23/02/10
RAIOS E INVERNOS
Este é Mallarmé, meu superego simbolista que decai sobre os meus dias sempre enternecidos com a política. Os meus dias sempre ao contrário dos que são contra, ou sem contrário dos que são a favor. Não digo nada que não queira, mas digo o que muitos não querem ouvir. Querem um exemplo? Eu me enterneço com a política e seus atores que resplandecem por vários motivos, dos mais torpes aos mais interessantes e concernentes à melhoria de nossas vidas. Aliás, eu acho que esse "mar-de-lama" escorre grandes benefícios em meio aos ovos e a prostituição. É uma inconveniência tão necessária quanto os prostíbulos da cidade grande para um proletariado que nunca leu Reich. Mas tem gente que prefere o exercício músculo-intelectivo de lançar os tais ovos podres.
Eu acho que chamar político de ladrão é uma abominação. Acho porque é muito pretensioso querer ser povo quando não se escova os dentes (e por isso mesmo temos mais de um bilhão de cáries acampadas na boca de milhões de vociferantes). E também porque rima bem ão-com-ão.
Mas é preciso esclarecer que não estou aqui querendo posar de alheio à boa vontade do legislador ou do gestor público em nos querer educar um pouco melhor, querer nos ensinar a descartar o lixo, querer nos ensinar a não jogar lixo na rua. Se falta um zilhão de almas para se educar em posturas urbanas, como esperar que selecionem a mais fina flor da retidão?
Acho que há um tecido duplo sobre a pele que nos faz desejar o contrário do que repudiamos. Essa é a loucura. Tem gente com opinião muito mais transversal do que eu. Essa pulsão de desejar o político é tão maniqueísta quanto a de repudiar. Cuspir na Geni.
Então, vou mandar alguns contrários:
> As casas legislativas não são tão ruins. A vida é que nos confunde pela impertinência da má distribuição do fausto nepotista, ou pelas negociatas convenientes no contraste da massa depauperada. E nos confunde por nossos desejos obscenos ante o covil de lobos que não espreitam e não devoram, mas sim, arvoram-se.
> Deputado não é ladrão e sim corretor dos objetivos carreiristas que alimentam o ideal de ficção que os eleitores têm entre um jogo de futebol com cerveja e um fim de semana na praia, seja em um hotel cinco estrelas ou num ônibus alugado de turismo.
> Não existem partidos desonestos. Acho que partidos como Psol e Dem são concatenações distintas da mesma dúvida, da mesma necessidade classista ou ideológica de buscar uma identidade mercadológica. Promovem idéias através de uma performance repleta de emocionalismos convictos. Encontram uma sociedade cujas pertubações fomentam uma ocupação de espaço propensa ao prazer de ver o beque do nosso time cometer uma falta espúria, de vibrar porque o juiz não deu pênalti a favor do adversário, de burlar regras por conveniência individual.
> O amor é um mito. Ando em busca da teoria de Roland Barthes de que o amor é um MITO da sociedade moderna, esse fenômeno de difícil definição e que nos desaproxima da verdade. Estrutura-se sobre um conjunto de acontecimentos e fragmentos sócio-culturais e aninha-se em nosso corpo articulando o físico ao mental. Para Foucault o mito equaciona o saber, a verdade e o poder, e essas três formas de manifestação fazem parte do inconsciente coletivo amoroso. Aceitar a idéia do amor como MITO não é muito agradável, nem para mim nem para a maioria dos mortais, com exceção de alguns tipos de psicopatia presente no discernimento de alguns imortais. De qualquer modo posso manifestar livremente minha interpretação dessa mitologia e ajustá-la as minhas expectativas de amor à pátria, paixão, flerte, assédio, traição, lealdade e insubmissão. Tudo posso em nome do amor. Uns explodem bombas, outros arremessam aviões e uns outros tentam assassinar o papa.
> Depois eu continuo.
I n c o m u n i c a ç ã o
Quero saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
EL ÁNGEL GUARDIÁN
Es verdad, no es un cuento;
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Tiene cabellos suaves
que van en la venteada,
ojos dulces y graves
que te sosiegan con una mirada
y matan miedos dando claridad.
(No es un cuento, es verdad.)
Él tiene cuerpo, manos y pies de alas
y las seis alas vuelan o resbalan,
las seis te llevan de su aire batido
y lo mismo te llevan de dormido.
Hace más dulce la pulpa madura
que entre tus labios golosos estrujas;
rompe a la nuez su taimada envoltura
y es quien te libra de gnomos y brujas.
Es quien te ayuda a que cortes las rosas,
que están sentadas en trampas de espinas,
el que te pasa las aguas mañosas
y el que te sube las cuestas más pinas.
Y aunque camine contigo apareado,
como la guinda y la guinda bermeja,
cuando su seña te pone el pecado
recoge tu alma y el cuerpo te deja.
Es verdad, no es un cuento:
hay un Ángel Guardián
que te toma y te lleva como el viento
y con los niños va por donde van.
Gabriela Mistral
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