E eu estava ali diante dele, tentando imaginar o roteiro daquela pequena vida, um cara com uma caixa de engraxate repleta de santinhos, desses que as gráficas vendem aos bilhões, com novenas, para serem distribuídos em pagamento de promessas. Estavam esmaecidos mas estavam lá.
Por um instante parei totalmente minha vida, meus pensamentos emergenciais e circunstanciados por dívidas e despesas, que a qualquer momento me parecem mais importantes do que as intendências dos miseráveis que habitam as ruas. Lembro-me de um artigo que li sobre segurança na Internet e refleti sobre essa pequena falha no "tunelamento" de minhas preocupações. Ou seja, desviei-me do "túnel" que nos protege de ficar pensando nos engraxates.
Um real, era quanto custava aquele tempo, R$ 1,00 sem sorrisos para aquele agachado sem perfil, sem sofrimento audível. Ele está preparado para não me contar nada, não perder tempo contando suas desgraças ou carências a um software pequeno burguês. Eu sou o programa. E a caixa de engraxate é a conexão, como se tivessemos um bluetooth que nos permitisse um contato passageiro, para a transmissão de apenas curtas mensagens.
Só sei que ficava olhando para o São Judas Tadeu que estava pregado na caixa, tentando saber se não estava numa espécie de oratório portátil ou delivery divino, a me trazer o patrono das causas desesperadas e das causas perdidas, humildemente sob meus pés, para um despacho meramente simbólico e informal. Um ato de esperança no térreo. Uma destinação simplória e ocasional decaída em genuflexório de engraxate. Eu não sou a esperança, ele não era, o tempo era demasiado curto para minha alma renascer. Mas ele estava ali. E eu paralisado pela circunstância.
O engraxate foi sem um sorriso. Este não era um relações públicas, não era externamente um padroeiro, não cobrava piedade.
Talvez o dinheiro fosse para pão, talvez fosse para um joelho quentinho, ou cola, ou crack, ou leite para um moleque que haveria de encontrar amanhã sem destino. Não sei. Só sei que tirei de meu peito a ilusão que me custou um real e sonhei que amanhã a chuva haveria de lavar minha alma e a dele. Eu sob taxa condominial e com conforto. Ele, talvez sob uma das passarelas subterrâneas do parque do flamengo.
Ele aceitou a nota de dois reais que lhe dei, a gorgeta emocional, o observar secreto de minha compaixão, e eu aceitei de bom grado o sapato engraxado. Só quando cheguei em casa é que percebi que ele estava furado.
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